São Paulo concentra 80% da produção de laranja do Brasil
Citricultura paulista movimentou R$ 16,9 bilhões em 2025 e reúne 54 variedades comerciais; pesquisas desenvolvidas em Limeira contribuíram para a expansão da atividade no estado


O estado de São Paulo responde por 80% de toda a produção de laranja do Brasil, segundo dados do Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus). A atividade movimentou R$ 16,9 bilhões em 2025, considerando a fruta destinada à indústria e ao consumo in natura, e tem parte de sua história ligada a Limeira (SP), onde funciona o Centro de Citricultura Sylvio Moreira, do Instituto Agronômico (IAC-APTA).
Atualmente, o estado possui 54 variedades comerciais de laranja registradas no Centro de Citricultura. Elas apresentam diferenças de sabor, período de maturação e finalidade de produção. Entre as mais conhecidas está a laranja Pera, responsável por aproximadamente 30% da produção de laranjas doces, utilizada tanto para consumo direto quanto pela indústria de sucos.
Outras variedades presentes nos pomares paulistas são Natal, Valência e Folha Murcha. Segundo os dados apresentados pelo setor, cerca de 90% das variedades cultivadas em São Paulo têm origem em trabalhos de pesquisa ou na manutenção de matrizes genéticas realizadas pelo Instituto Agronômico.
Produção de laranja movimentou bilhões em São Paulo
A importância econômica da citricultura aparece nos números do Valor da Produção Agropecuária (VPA) paulista. De acordo com o Instituto de Economia Agrícola (IEA), a laranja destinada à indústria movimentou R$ 13,1 bilhões em 2025, enquanto a produção voltada ao consumo in natura somou R$ 3,8 bilhões.
A presença da fruta também se reflete no comércio exterior. Entre janeiro e setembro de 2026, as exportações paulistas do grupo de sucos movimentaram US$ 1,42 bilhão. Desse total, 96% corresponderam ao suco de laranja.
O diretor do Centro de Citricultura Sylvio Moreira, Dirceu Mattos Jr., explica que o setor passou por mudanças nas últimas décadas, enfrentando problemas sanitários, climáticos e econômicos, além de impactos relacionados às políticas internacionais.
“A citricultura paulista tem apresentado, nas últimas décadas, uma característica ímpar no agronegócio. Nesses 30 anos, o setor superou pressões fitossanitárias, climáticas e econômicas, além dos impactos de políticas globais, alcançando um aumento de duas vezes e meia na produtividade. Poucas culturas apresentaram um avanço dessa magnitude, o que contribuiu significativamente para o crescimento da atividade”, destacou.
Limeira teve papel na expansão da citricultura paulista
A produção de frutas cítricas no Brasil começou no século XVI, após a introdução dessas espécies pelos portugueses. Em São Paulo, a atividade se expandiu ao longo dos séculos, mas passou por mudanças importantes no início dos anos 1900.
Entre os fatores que contribuíram para a estruturação do setor estão o incentivo a novos plantios, a utilização de mudas enxertadas e o desenvolvimento de pesquisas voltadas à produção.
Nesse processo, Limeira passou a integrar a história da citricultura paulista com a criação da Estação Experimental de Limeira, em 1928. A unidade foi transformada, em 1993, no Centro de Citricultura do Instituto Agronômico.
“A citricultura paulista foi muito beneficiada, principalmente no início dos anos 1900, pelo estímulo a novos plantios, pela utilização de mudas enxertadas e pelo fortalecimento da assistência ao setor, especialmente nas áreas de pesquisa e tecnologia. Um exemplo desse avanço foi a criação da Estação Experimental de Limeira, em 1928, que posteriormente se tornaria o Centro de Citricultura do IAC-APTA, em 1993”, explicou Dirceu.
Atualmente, o Centro de Citricultura Sylvio Moreira desenvolve pesquisas nas áreas de melhoramento genético, fitossanidade, nutrição, biotecnologia e manejo.
Nos últimos três anos, foram lançadas e disponibilizadas 24 novas variedades de citros, destinadas a ampliar as alternativas de cultivo para produtores e de utilização pela indústria.
A unidade também abriga o Banco de Germoplasma de Citros do IAC, que reúne uma das principais coleções de materiais genéticos de citros do mundo. O acervo é utilizado em pesquisas voltadas ao melhoramento das plantas e ao desenvolvimento de novas variedades.
Laranja Baía surgiu no Brasil e chegou a outros países
Uma das histórias relacionadas à citricultura brasileira envolve a laranja Baía, variedade que surgiu a partir de uma mutação espontânea identificada no estado da Bahia, durante o século XIX.
Com o passar do tempo, a fruta foi levada para outros países, incluindo Estados Unidos e Austrália. Em território norte-americano, passou a ser conhecida como Washington Navel, tornando-se uma variedade difundida na produção de frutas frescas da Califórnia.
O termo inglês navel significa umbigo, uma referência à característica apresentada pelo fruto.
“A Baía é uma variedade muito interessante, foi selecionada pelo setor e se tornou uma cultivar. Essa variedade ganhou o mundo, sendo levada para países como Estados Unidos e Austrália. Para os norte-americanos ficou conhecida como Washington Navel, sendo amplamente difundida na citricultura californiana. ‘Navel’ significa umbigo, em referência à característica do fruto, e hoje tem grande importância na produção de frutas frescas da Califórnia. É uma história que pouca gente conhece e que mostra como uma variedade originada aqui conquistou espaço internacionalmente”, relatou Dirceu.
Outra curiosidade envolve os kumquats, popularmente chamados de laranjas-anãs. Apesar do nome, esses frutos não são classificados como laranjas. Eles possuem tamanho reduzido, podem ser consumidos com a casca e também são utilizados na preparação de doces, compotas e geleias.
Greening preocupa produtores e exige medidas de controle
Entre os problemas enfrentados pela citricultura paulista está o greening, também chamado de HLB, uma doença associada a bactérias e transmitida pelo psilídeo, um pequeno inseto que afeta as plantas cítricas.
A Diretoria de Defesa Agropecuária, vinculada à Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo, é responsável pelo monitoramento da doença e pela fiscalização das medidas de prevenção e controle adotadas nas propriedades.
Pelas regras estaduais, os produtores devem realizar inspeções nas plantas cítricas a cada três meses. Também é obrigatório encaminhar relatórios semestrais de Cancro Cítrico/Greening pelo sistema informatizado de Gestão de Defesa Animal e Vegetal (GEDAVE).
Em 2026, novas normas passaram a estabelecer diferentes exigências conforme a incidência do greening em cada município. A classificação considera os relatórios apresentados pelos produtores e os levantamentos realizados pela Defesa Agropecuária.
Nas cidades classificadas com baixa incidência da doença, a eliminação de plantas com sintomas é obrigatória, independentemente da idade.
Já nos municípios com alta incidência, a exigência de eliminação das plantas sintomáticas fica concentrada nos pomares com até três anos de idade.
O controle do psilídeo, inseto responsável pela transmissão da doença, continua obrigatório em todo o estado de São Paulo.
Além do acompanhamento do greening, a fiscalização estadual também abrange a produção de mudas cítricas. O trabalho verifica a origem genética das plantas e as condições fitossanitárias do material utilizado na formação de novos pomares.
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