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Jovens da ‘geração 11 de Setembro’ tentam manter memória dos pais mortos nos ataques

Atentados ao World Trade Center completam 20 anos neste sábado (11)


Por Folhapress Publicado 11/09/2021
Foto: Pixabay

No dia 10 de setembro de 2001, Kimberly Rex sentou-se à esquerda do pai na hora do jantar, como de costume, e o observou tascar queijo ralado na sopa. Depois, também por hábito, assistiu com ele a “Jeopardy”, um clássico programa de perguntas e respostas da TV americana. “Ele sempre sabia muitas respostas e ficava animado quando acertava algo que o participante não conseguia”, lembra ela à reportagem. Naquela noite, Kimberly tinha 19 anos e um pai com nariz pontudo, cabelo grisalho e respostas na ponta da língua. Na manhã seguinte, Vincent Litto não existia mais.

Ele era vice-presidente de uma empresa de serviços financeiros sediada no World Trade Center e que perdeu 658 funcionários, dois terços da equipe, nos ataques do 11 de Setembro. Mais importante para aquela jovem, ele era o homem que “sempre sabia a coisa certa a se dizer”. Nos dias que se seguiram, Kimberly, hoje escritora em Nova York, testemunhou o avô paterno soluçar de tanto chorar ao descobrir que os restos do filho de 52 anos (“meu bebê, meu bebê”) estavam em algum lugar sob os escombros dos prédios. Ou quando enfim o enterraram, e só a mãe dela sabia exatamente o quanto de Vincent havia no caixão -as equipes de resgate encontraram apenas vestígios de seu pai.

A americana faz parte da geração que era criança, adolescente ou nem sequer havia saído da barriga da mãe quando o sequestro de quatro aviões por terroristas terminou por matar quase 3 mil pessoas.

Nick Gorki, 19, é um dos estimados 108 bebês que nasceram após os atentados. Sua mãe, a brasileira Paula, trabalhava em uma das torres em Nova York. Estava com um enjoo típico de gravidez na manhã do dia 11. Atrasou-se. Tomava um ar do lado de fora do edifício quando viu o primeiro avião mergulhar no bloco de vidro e concreto. O namorado e pai de seu filho estava num dos andares.

Sebastian Gorki, um alemão de 27 anos que não dava expediente no WTC, mas tinha uma reunião em uma das torres do complexo naquele dia, morreu. A história de Nick, um cheerleader que gosta de computação e começou a universidade neste ano, está em “Generation 9/11” (geração 11/9). O documentário do canal americano PBS reconta o colapso das Torres Gêmeas “pelo ponto de vista das crianças moldadas de maneira única pela tragédia”, afirma John Smithson, seu produtor-executivo. As investidas terroristas que também miraram o Pentágono (125 vítimas no solo) e a Casa Branca (passageiros e tripulação derrubaram o avião antes que ele chegasse ao alvo) reconfiguraram os Estados Unidos nas últimas duas décadas. Em questão de dias, o então presidente George W. Bush declarou uma guerra ao terror que levou o país a fiascos internacionais, como os conflitos no Iraque e no Afeganistão.

Para quem tem até 20 e poucos anos, a única memória sobre aqueles dias é a coletiva, compartilhada por uma nação que acordou outra em 12 de setembro de 2001 e foi gradualmente ficando mais polarizada e intolerante com muçulmanos e imigrantes em geral. Pesquisa feita em agosto deste ano pelo Pew Research Center mostra que 72% dos republicanos, o partido pelo qual Donald Trump se elegeu em 2016, acham que o islã encoraja mais a violência do que outras religiões.

A Tuesday’s Children -crianças de terça, dia da semana em que os atentados de 11/9 aconteceram- é uma das organizações criadas em 2001 para ajudar famílias afetadas por esse capítulo citado pelos americanos contemporâneos como o principal evento histórico dos EUA, à frente da eleição de Barack Obama e do assassinato, em 1963, do presidente JFK, ainda de acordo com o Pew Research Center.

Porta-voz da entidade, Kathy Murphy diz que o escopo foi aumentando com o tempo, porque os estragos não se restringiram à data. Hoje, o programa auxilia também, por exemplo, “famílias dos que tombaram”, referência a conterrâneos militares mortos nas guerras deflagradas pela Casa Branca no período. São mais de 42 mil pessoas atendidas, boa parte delas menores de idade. “Não há uma medição simples para o impacto do 11 de Setembro sobre as crianças, pois elas estão em uma jornada de recuperação que vai durar uma vida toda. O crescimento pós-luto de cada uma delas é muito individualizado.” As crianças de terça são hoje jovens como Robin Ornedo, 19. Ela contou ao jornal The Washington Post como, em 2007, sua professora pediu à turma para preparar uma dobradura para o Dia dos Pais que lembrasse uma camisa social e uma gravata. Robin nasceu no dia 31 de janeiro de 2002, quatro meses e meio após Ruben Ornedo morrer a bordo do avião que terroristas usaram para atacar o Pentágono. O pai que jamais conheceu tinha 39 anos.

Então com 6 anos, ela pegou um papel roxo para a camisa e outro turquesa para a gravata. Na arte que bolou, descreveu o engenheiro da Boeing, conhecido entre colegas como “Ornedo, o Tornado”, como alguém “divertido e engraçado”. “Fiz de conta que meu pai estava vivo só para não me sentir tão excluída.” Para Dina Retik, outra jovem de 19 anos que dá seu depoimento no filme da PBS, ser por tanto tempo parte da “família 11/9” fez com que esse rótulo a seguisse por toda a vida. Sua mãe estava no estacionamento de um supermercado quando soube, pelo rádio, que o primeiro avião havia batido contra o WTC. Com Dina havia sete meses no ventre, Susan Retik desistiu das compras e correu para casa. Queria checar o número do voo de David, seu marido. Era aquele.

Susan fundou a ONG Beyond the 11th (além do dia 11), que dá suporte a viúvas do Afeganistão, em sufoco desde que as tropas americanas deixaram o país sob controle do misógino Talibã, em agosto. Num momento em que os EUA “estavam repletos de ódio”, diz Dina, sua mãe “se encheu de amor”.

Kimberly, a autora que dividiu uma sopa com o pai na última noite que tiveram juntos, nem sempre gosta de acompanhar a inevitável repercussão da data. “Depende do meu humor. Há anos em que quero ver todos os detalhes horríveis e chorar. Em outros, simplesmente não tenho vontade de assistir a nada.” Mas o problema, diz, é que ela não precisa ligar a TV ou checar as notícias no celular para recordar. “Lembro-me vividamente daquele dia e das semanas e meses que se seguiram”, conta. “Não poderia esquecer nem se tentasse. No entanto, acredito totalmente no mantra ‘nunca se esqueça’.”

E o esforço para nunca deixar o 11 de Setembro esmorecer na memória não deveria partir só de quem há 20 anos é assombrado diretamente pelas imagens de fogo e fúria, diz Kimberly. “Você deve se lembrar de tudo que esse dia foi e de tudo que ainda é. Diga a seus filhos. Lembre-se daqueles que morreram mortes horríveis. Lembre-se daqueles que tentaram salvá-los. Pense neles sempre e nunca esqueça.”

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